Análise e palpites do Oscar 2013

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De todos os filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme, os dois únicos que não vi foram “As Aventuras de Pi” e “Os Miseráveis”. No entanto, estes dois filmes têm pouca ou quase nenhuma chance de levarem a estatueta de Melhor Filme.

O Oscar é um prêmio político acima de tudo e, em último caso, não serve como parâmetro para avaliar a qualidade técnica e artística de um filme . A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood mais errou do que acertou ao longo de sua história na entrega do prêmio; vários absurdos foram cometidos (exemplos : “Chicago”, “Shakespeare Apaixonado”, “Crash – No Limite” , “Quem quer ser um milionário” e “O Discurso do Rei” ganharam o Oscar de Melhor Filme nos últimos anos, alguns deles filmes medíocres e outros ruins, filmes que nem deveriam ser indicados para começo de conversa; diretores do calibre de Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick, mesmo com várias obras-primas na carreira, não levaram sequer uma única estatueta de Melhor Diretor para casa; “Os Bons Companheiros” de Martin Scorsese – talvez o melhor filme da década de 90 – perdeu o Oscar em 1991 para o mediano “Dança com Lobos” de Kevin Costner).

Das ausências sentidas na lista de Melhor Filme deste ano, cito, sobretudo “007-Operação Skyfall” que não só é o melhor filme de James Bond feito até hoje como também foi um dos melhores filmes que eu vi no ano de 2012. Daniel Craig está ainda melhor como Bond, Javier Bardem faz um vilão sensacional (talvez o melhor da série até agora) e Judi Dench mais uma vez está muito bem como M. Não faltam referências a aspectos clássicos da franquia (principalmente no final) e Roger Deakins arrebenta na fotografia do filme (há cenas de beleza deslumbrante). Sam Mendes deu aos fãs, nos 50 anos de Bond comemorados ano passado, o melhor presente de todos: um filmaço. Pelo menos, como consolação, o filme está concorrendo em 5 categorias técnicas: Melhor Canção, Melhor Fotografia, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som e Melhor Trilha Sonora.

Dos filmes que concorrem ao Oscar de Melhor Filme este ano, o único que realmente merece ser chamado de “Melhor Filme” é “A Hora Mais Escura”, um excelente thriller político e de ação que bebe na fonte de filmes como “Todos os Homens do Presidente” para construir de maneira quase que documental a impressionante caçada da CIA (destaque para incrível transformação da personagem de Jessica Chastain ao longo do filme e para profundidade que ela consegue imprimir em tela) e do exército norte-americano ao terrorista Osama Bin Laden. Os outros filmes são bons de uma forma geral, mas nenhum consegue se igualar a “A Hora Mais Escura”. Se, como ao que tudo indica, “Argo” ganhar o prêmio de Melhor Filme, não será um absurdo como o que ocorreu com os outros filmes citados acima e que também levaram o prêmio de Melhor Filme anteriormente; entretanto, ganhará o prêmio mais pelo fato da polêmica em torno de “A Hora Mais Escura” (senadores dos EUA chamaram o filme de “grosseiramente impreciso e enganoso” por sugerir que a tortura ajudou os Estados Unidos a rastrear o líder da Al Qaeda até um complexo no Paquistão. Os senadores citaram registros de inteligência divulgados em abril de 2012, que mostraram que isso não era o caso e disseram que o filme “tem o potencial de influenciar a opinião pública norte-americana de uma forma perturbadora e enganosa”. Isto fez o filme perder força na reta final das premiações da indústria cinematográfica) do que por méritos próprios.

“Argo” é um ótimo filme e mostra uma evolução na carreira de Ben Affleck como diretor. No entanto, não consegue bater ou ao menos igualar os méritos artísticos e técnicos do filme da diretora Kathryn Bigelow (que, diga-se de passagem, também foi esnobada neste Oscar na categoria de Melhor Diretor, assim como Ben Affleck e Quentin Tarantino); algo que fica mais evidente ainda pelo fato do filme de Affleck também ser um thriller político. O ponto forte de “Argo” é a verossimilhança com que Affleck consegue retratar o absurdo e quase que surreal plano da CIA (fazendo várias referências à própria Hollywood) para libertar seis americanos que encontram-se abrigados na casa do embaixador canadense na época da Revolução Iraniana.

“Django Livre” é uma bela homenagem de Quentin Tarantino aos westerns spaghetti da década de 60 (os filmes de faroeste feitos por diretores italianos como Sergio Leone e Sergio Corbucci), mas tem problemas de ritmo perto do final e não está no mesmo nível de excelência de outras obras do diretor, sobretudo “Pulp Fiction”, “Cães de Aluguel” e, de seu filme anterior, “Bastardos Inglórios”.  O destaque vai para as atuações inspiradas de Christopher Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson e Jamie Foxx e para o roteiro de Tarantino que contém, como de costume, diálogos afiados e impagáveis.

“Lincoln” sofre de problema parecido a “Django Livre”, pois Steven Spielberg arrasta desnecessariamente o filme demais perto do seu final, tudo como pretexto para tentar ser melodramático e arrancar algumas lágrimas do espectador. “Lincoln” é muito bom quando se concentra em todo o debate e esquema políticos por trás da aprovação da 13ª Emenda da Constituição norte-americana (Emenda que aboliu a escravidão nos EUA), mas não mantém o nível quando foca na relação do presidente Abraham Lincoln com sua insuportável mulher (Sally Field totalmente exagerada em cena) e com seu filho. Os méritos do filme vão quase todos para aquele que considero o melhor ator em atividade atualmente: Daniel Day-Lewis, ator que se transforma nos personagens que interpreta de maneira tal que é inevitável não reverenciá-lo e conceder-lhe todos os prêmios a que tem direito.

“O Lado Bom Da Vida” tem sua força nos excelentes diálogos (méritos aí para o roteiro) e nas interpretações humanas e sensíveis que o diretor David O. Russel consegue arrancar do seu elenco: Bradley Cooper (interpreta o bipolar Pat de maneira carismática e real, mostrando que pode ir mais além do que o papel de “galã” em filmes de comédia romântica despretensiosas), Jennifer Lawrence (é quase impossível não se apaixonar pela problemática, maluca e verdadeira Tiffany interpretada por ela) e Robert DeNiro (desde “Cassino” e “Fogo Contra Fogo” DeNiro não entrega uma atuação do mesmo nível da apresentada aqui; é, sem dúvidas, a maior surpresa agradável do filme e, em se tratando de atuação, uma das maiores surpresas do ano). “O Lado Bom Da Vida” é o tipo de filme que faz o espectador sair bem do cinema (o chamado “feel good movie”), mas, ao mesmo tempo, o faz pensar sobre como superar as dificuldades da vida; o grande tema do filme é este: a superação (no caso, a doença sofrida pelo personagem principal).  A verdade é que todos nós temos um pouco de Pat e Tiffany.

De “Amor” e “Indomável Sonhadora” tenho pouco a dizer: apenas que o primeiro, apesar de ser um bom filme, ter boas atuações, ter ganho a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2012 e ser o favorito a levar o Oscar de Filme Estrangeiro, não é nem de perto a obra-prima que muitos críticos estão dizendo que é (o diretor Michael Haneke já foi melhor em “Violência Gratuita” e “Caché”, por exemplo); quanto ao segundo, é o típico filme independente simpático que Hollywood todos os anos tenta elevar ao status de cult (mais ou menos o que aconteceu com “Juno” em 2007), mas que daqui a um ano ninguém vai lembrar mais (esse filme só vale ser visto mesmo pela atuação da menina Quvenzhané Wallis como a personagem Hushpuppy).

Abaixo, dou minhas notas para os 7 filmes que vi e que concorrem ao Oscar de Melhor Filme e meus palpites para as principais categorias (como não vi ainda nenhuma das animações que concorrem ao Oscar nem os documentários, não darei palpites nessas categorias).

NOTAS

– A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)_Kathryn Bigelow

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Nota: 9,0

– Argo_Ben Affleck

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Nota: 8,5

– Django Livre (Django Unchained)_Quentin Tarantino

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Nota: 8,5

– Lincoln_Steven Spielberg

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Nota: 8,0

– O Lado Bom Da Vida (Silver Linings Playbook)_David O.Russel

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Nota: 8,0

– Amor (Amour)_Michael Haneke

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Nota: 7,5

– Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild)_Benh Zeitlin

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Nota – 7,0

PALPITES

– MELHOR FILME

Acredito que vai ganhar: Argo.

Deveria ganhar: A Hora Mais Escura.

– MELHOR DIRETOR

Acredito que vai ganhar: Steven Spielberg.

Deveria ganhar: Entre os indicados, nenhum. Se o Oscar não tivesse feito besteira e  tivesse indicado Kathryn Bigelow, ela deveria ser a vencedora. O Oscar também não seria mal dado a Ben Affleck ou Quentin Tarantino. No entanto, nenhum deles foi indicado.

– MELHOR ATOR

Acredito que vai ganhar: Daniel Day-Lewis.

Deveria ganhar: Daniel Day-Lewis.

– MELHOR ATRIZ

Acredito que vai ganhar: Jennifer Lawrence.

Deveria ganhar: Jennifer Lawrence. No entanto, se o Oscar for dado para Jessica Chastain não será mal dado, pois sua interpretação da agente da CIA Maya é a alma de A Hora Mais Escura.

– MELHOR ATOR COADJUVANTE

Acredito que vai ganhar: Christopher Waltz.

Deveria ganhar: Talvez esta seja a categoria mais disputada esse ano. Acredito que além de Christopher Waltz, outro que tem grandes chances de levar o prêmio é Tommy Lee Jones. No entanto, pelo fator surpresa e também por conseguir entregar uma atuação que há muito tempo não conseguia, eu acho que Robert DeNiro deveria ganhar. Não daria o prêmio para Christopher Waltz porque sua interpretação em Django Livre é bem parecida com a de Bastardos Inglórios.

– MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Acredito que vai ganhar: Anne Hathaway, apesar de não ter visto Os Miseráveis.

Deveria ganhar: Como não vi Os Miseráveis (por qual  Anne Hathaway concorre) nem As Sessões (por qual Helen Hunt concorre), não tenho como dar uma opinião abalizada sobre esta categoria. No entanto, dos filmes que eu vi, acredito que Amy Adams seria uma boa escolha.

– MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Acredito que vai ganhar: Django Livre.

Deveria ganhar: Django Livre. Apesar de que não acharia ruim se A Hora Mais Escura vencesse.

– MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Acredito que vai ganhar: Argo.

Deveria ganhar: Argo.

– MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Acredito que vai ganhar: Amor, até porque está indicado na categoria melhor filme.

Deveria ganhar: Não tenho como dar opinião, pois não vi os outros 4 indicados.

– MELHOR FOTOGRAFIA

Acredito que vai ganhar: As Aventuras de Pi, por tudo que se tem falado na imprensa nas última semanas ( isto porque não vi o filme ainda).

Deveria ganhar: 007 – Operação Skyfall.

– MELHOR CANÇÃO

Acredito que vai ganhar: 007 – Operação Skyfall.

Deveria ganhar: 007 – Operação Skyfall.

– MELHOR MONTAGEM

Acredito que vai ganhar: Argo.

Deveria ganhar: A Hora Mais Escura.

– MELHORES EFEITOS VISUAIS

Acredito que vai ganhar: As Aventuras de Pi.

Deveria ganhar:  Em relação aos filmes que vi daria o Oscar para O Hobbit.

– MELHOR TRILHA SONORA

Acredito que vai ganhar: As Aventuras de Pi

Deveria ganhar: 007 – Operação Skyfall.

– MELHOR FIGURINO

Acredito que vai ganhar: Anna Karenina, apesar de não ter visto o filme.

Deveria ganhar: Entre os que vi, Lincoln.

– MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

Acredito que vai ganhar: Anna Karenina.

Deveria ganhar: Entre os que vi, Lincoln.

– MELHOR EDIÇÃO DE SOM

Acredito que vai ganhar: Argo.

Deveria ganhar: A Hora Mais Escura

– MELHOR MIXAGEM DE SOM

Acredito que vai ganhar: Os Miseráveis, por ser um musical.

Deveria ganhar: 007 – Operação Skyfall

– MELHOR MAQUIAGEM

Acredito que vai ganhar: Os Miseráveis.

Deveria ganhar: O Hobbit.

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Crítica – 13 Assassinos

O diretor japonês Takashi Miike é conhecido por ser prolífico (lança uma média de 2 filmes por ano; sua obra já ultrapassa os 80 filmes rodados) e também por utilizar a violência e a brutalidade na maioria dos seus filmes (não à toa muitos o chamam de o Quentin Tarantino japonês; Tarantino, inclusive, já fez uma participação em um dos filmes de Miike, “Sukiyaki Western Django”, lançado em 2007). Em 13 Assassinos (Jusan-nin no Shikaku, 2010), o diretor emprega uma abordagem mais clássica ou sóbria, mas sem, no entanto, deixar de lado o sadismo e a violência típica de seus filmes, o que resulta em um longa-metragem empolgante e que agrada em cheio aos fãs dos chamados “filmes de samurai”. Por isto, se você aprecia “Os Sete Samurais”, “Yojimbo” e “Sanjuro” de Akira Kurosawa ou até mesmo “Kill Bill” de Quentin Tarantino, certamente irá gostar de 13 Assassinos.

O filme (uma refilmagem de um longa dirigido por Eiichi Kudo em 1963) conta a história de um grupo de samurais (liderados pelo carismático Shinzaemon) que são contratados pelo Sir Doi (irmão do shogun) para assassinar o sádico Lorde Naritsugu antes que este possa se tornar um dos conselheiros do shogun. Miike utiliza toda a primeira metade do filme para que o público conheça seus personagens e também para fazer com que o espectador passe a odiar o Lorde Naritsugu (contribui para isto não só os atos de crueldade cometidos pelo Lorde – estupros, massacres e mutilações – e que são mostrados sem nenhuma cerimônia por Miike, como também a ótima interpretação de Gorô Inagaki, que faz seu Naritsugu de maneira contida e fria) e a ter empatia pelos samurais que são reunidos por Shinzaemon.

Cada um dos 13 samurais é mostrado de maneira eficiente, sendo que ganham destaque, além do próprio Shinzaemon (Kôji Yakusho consegue dar a Shinzaemon um ar de inteligência e sabedoria, e estabelecer também uma interessante rivalidade com Hanbei, samurai protetor do Lorde Naritsugu), Shinrouko (o bêbado sobrinho de Shinzaemon e que tem um dos principais arcos dramáticos da trama); Hirayama (é o samurai mais habilidoso do grupo, tendo uma batalha logo no início do filme em que ele liquida rapidamente vários adversários em questão de segundos) e Koyata (personagem mais engraçado do filme; funciona como alívio cômico e lembra um pouco o personagem de Toshirô Mifune no clássico “Os Sete Samurais” de Akira Kurosawa).

Se na primeira metade do filme Miike foca na apresentação e aprofundamento dos seus personagens, a segunda é quase toda focada no combate épico (que dura cerca de 40 minutos!) entre o grupo de Shinzaemon e os samurais comandados por Naritsugu em uma pequena vila (cabe destacar o ótimo design de produção da vila em que esta batalha ocorre, surgindo como uma espécie de labirinto recheado de armadilhas bastante inventivas e surpreendentes). Não é exagero dizer: o final deste filme é uma das melhores cenas de ação dos últimos anos; uma batalha brilhantemente filmada e coreografada por Miike, começando de madrugada e terminando apenas no pôr-do-sol, demostrando claramente o esforço, a honra e o sacrifício daqueles samurais em busca de um ideal maior. Interessante notar que Miike deixa o espectador saber claramente o que acontece em toda a sequência; a mise-èn-scene do combate é mostrada de maneira precisa (quem assiste ao filme sabe onde cada samurai se situa na ação e visualiza cada movimento feito); não há espaço aqui para as câmeras tremidas e para os cortes abruptos tão comuns nos atuais filmes hollywoodianos.

Com 13 Assassinos, Takashi Miike se estabelece como um dos principais diretores do atual cinema oriental (ao lado de nomes como Hayao Miyazaki, Wong-kar Wai e Chan-wook Park; para citar alguns). Pena que muitas vezes opte mais pela quantidade do que qualidade dos seus projetos, pois se tivesse com todos os seus filmes o mesmo cuidado que teve ao fazer este, certamente seria um diretor mais festejado e admirado do que já é e com uma filmografia muito mais interessante.

Nota – 8,5

Crítica – A Origem

Em A Origem (Inception, 2010) , Christopher Nolan consegue misturar a complexidade narrativa de Amnésia e a tensão de Batman: O Cavaleiro das Trevas, atingindo um resultado magnífico. O roteiro do filme (escrito pelo próprio Nolan) gira em torno de Don Cobb (Leonardo DiCaprio), um vigarista intelectual cuja a especialidade é adentrar nas mentes de executivos durante os sonhos para extrair segredos industriais. Cobb, no início do filme, é contratado por uma empresa para, juntamente com seu comparsa Arthur  (Joseph Gordon-Levitt), roubar um segredo da mente do misterioso empresário Saito (Ken Watanabe). Porém, tendo Saito sido treinado para se defender de invasões desse tipo, e, sabotado pela projeção que o seu subconsciente faz de sua esposa, Mal (Marion Cotillard), Cobb vê seu plano dar errado. Saito, então, faz uma proposta para Cobb: em troca de poder retornar para os EUA e, consequentemente, aos seus filhos (Cobb não pode mais retornar ao seu país por ser procurado pela polícia), ele deve não retirar, mas implantar uma ideia  (algo que ele não está habituado a fazer) na mente do jovem empresário Robert Fischer (Cillian Murphy), que herdará do seu pai o comando da empresa concorrente de Saito.

A partir desse ponto, ao mesmo tempo que o personagem de DiCaprio vai atrás de outras pessoas para poder executar seu elaborado plano – há desde a arquiteta dos sonhos Ariadne (Ellen Page), passando pelo especialista em químicos Yusuf (Dileep Rao) e o “falsificador” Eames (Tom Hardy) – Nolan nos apresenta a vários conceitos interessantes de forma precisa – “limbo”, “totem”, “sonhos dentro de sonhos”, “compartilhamento de sonhos”, etc, são expressões que o espectador deve ficar atento – e sempre confiando na inteligência do público (algo raro nas produções cinematográficas atuais) para acompanhar e entender a trama. Desse modo, o filme requer uma dose extra de atenção por parte da platéia (que, em sua grande maioria, está acostumada a filmes que possuem enredos “mastigados” demais), pois a intenção de Nolan é justamente essa: a de que o espectador participe ativamente da história contada, para resolver os mistérios apresentados e, ao final, tirar suas próprias conclusões sobre o que acabou de presenciar (o final do filme, diga-se de passagem, é brilhante ao deixar margem para diversas interpretações).

Do ponto de vista técnico, o filme é perfeito, pois, ao tratar de  diferentes níveis de sonho  que possuem durações de tempo diferentes, seria fácil confundir o público. No entanto, graças a genialidade do roteiro e da direção  de Nolan – em vários momentos o diretor emprega a câmera lenta para demonstrar que o tempo está transcorrendo, naquele determinado ponto, de maneira mais devagar – e a montagem de Lee Smith, a narrativa do filme se torna completamente compreensível e dinâmica (o filme nunca fica chato ou cansativo, muito pelo contrário, a ação sempre se faz presente).

A fotografia do filme ficou a cargo de Wally Pfister (o mesmo de Batman:O Cavaleiro das Trevas  e que, posteriormente, trabalharia com Nolan novamente em Batman:O Cavaleiro das Trevas Ressurge) , que realiza um trabalho bem competente ao dar uma identidade visual distinta a cada sonho. Pfister e Nolan, juntamente com a equipe de efeitos especiais, entregam cenas espetaculares à audiência, sendo que cada cena, enquadramento, sequência  e efeito especial tem sua razão de existir. Como exemplo de cena espetacular, há a luta em gravidade zero, no hotel, protagonizada por Arthur e a cena do café envolvendo Ariadne e Cobb, na qual há diversas explosões dentro do sonho.Deve-se mencionar ainda, dentro dos aspectos técnicos, a fantástica trilha sonora de Hans Zimmer, que realiza aqui um dos seus melhores trabalhos (farei, posteriormente, uma seção “Trilha Sonora” de A Origem com as músicas de Hans Zimmer).

E, se tudo isso não bastasse para tornar A Origem um filme sensacional, Nolan consegue  ainda que cada ator do seu  elenco estelar tenha uma interpretação perfeita para o seu papel. Leonardo DiCaprio, ao surgir como um homem fragilizado devido ao seu passado, embora extremamente competente naquilo que faz, entrega uma interpretação tão boa quanto a que teve em Ilha do Medo (filme de Martin Scorsese e com temática uma pouco parecida com A Origem), confimando-se como um ótimo ator que merece, inclusive, maior reconhecimento em festivais e premiações.

Marion Cotillard, na minha opinião uma das atrizes mais lindas e competentes do cinema atual (há que se ressaltar, porém, a sua atuação não tão boa em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge), surge como uma mulher sedutora, uma típica femme fatale, que, ao mesmo tempo que faz com que Don relembre momentos felizes do seu passado, representa  uma ameaça aos objetivos e planos do mesmo, sabotando-os.

Os demais personagens, apesar de não serem tão desenvolvidos ao longo do filme, jamais deixam de ser interessantes ou importantes. Joseph Gordon-Levitt, em mais um papel de destaque, interpreta seu Arthur de maneira a demonstrar lealdade a Cobb e uma certeza em tudo aquilo que está realizando durante a execução do plano, fazendo com que o espectador confie em suas ações. Já Ellen Page, que divide com Gordon-Levitt uma cena bastante divertida, se torna a guia do espectador (tal qual a personagem Ariadne da mitologia grega) durante o filme, sendo um laço constante de Cobb ao longo da trama. E, se Tom Hardy confere a Eames um tom sarcástico, convertendo-o num canalha que todos adoram, Ken Watanabe se apresenta de maneira a dar um ar misterioso e contido a Saito. Completam ainda o elenco Cillian Murphy, que tem seu momento de maior destaque no final do filme,  e os veteranos Tom Berenger (que não havia feito nada de importante durante anos) e Michael Caine (ator que se tornou figura carimbada nos filmes de Nolan).

Com A Origem, Nolan nos entrega um blockbuster que sabe unir entretenimento e conteúdo, algo dificil de se fazer e que só poucos diretores conseguiram até hoje (entre eles, Steven Spielberg, por exemplo), confirmando-se, assim, com um dos grandes cineastas de sua geração (ao lado de Paul Thomas Anderson, David Fincher e Darren Aronofsky, só para citar alguns); um filme inteligente e que sabe reunir influências de obras anteriores em algo original e extremamente empolgante.

Nota – 9,0

Crítica – Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge


Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge  (The Dark Knight Rises, 2010) é um filmaço que fecha de maneira épica a trilogia do homem-morcego dirigida por Christopher Nolan, tornando-se, desde já, uma das melhores trilogias do cinema (ao lado de O Poderoso Chefão – essa, sem dúvidas, a melhor de todas – , O Senhor dos Anéis, De Volta para o Futuro, os três filmes clássicos de Indiana Jones – o quarto filme deve ser ignorado – , a trilogia original de Star Wars, Toy Story e a famosa trilogia dos dólares de Sergio Leone que conta com Clint Eastwood interpretando o papel do Homem Sem Nome).

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge talvez não alcance o nível de perfeição atingido por Nolan em O Cavaleiro das Trevas, isso porque há alguns pequenos problemas de roteiro e também O Cavaleiro das Trevas contava com uma atuação espetacular de Heath Ledger como o Coringa (um dos maiores vilões da história do cinema), – algo difícil de ser igualado –, mas o tom épico, trágico, realista e emocionante que Nolan atinge nesse terceiro filme é digno de aplausos, conseguindo amarrar as pontas dos outros dois filmes e entregar uma conclusão de saga que será lembrada por muitos anos.

Todos os atores estão muito bem em seus papéis, a começar pela gatuna Selina Kyle interpretada por Anne Hathaway, em uma das suas melhores atuações até hoje. A sua Mulher-Gato é dissimulada (a cena dela em um bar depois da invasão da polícia ao local e a cena inicial na Mansão Wayne ilustram isto bem) e sexy ao mesmo tempo, mostrando-se parte essencial da trama e tendo algumas cenas (principalmente as de ação) ao lado de Batman que vão deixar os fãs de quadrinhos com um sorriso maior que o do Coringa. Tom Hardy interpreta Bane de forma imponente, transformando-o em um vilão ameaçador física e psicologicamente. Contribui para isso não apenas a intepretação vocal de Hardy (que é bastante importante, já que ele sempre surge com o rosto encoberto por uma máscara ao longo do filme), como também o fato de que Nolan optou por filmá-lo na maioria das vezes de baixo para cima, dando uma maior grandiosidade ao vilão. Outro personagem introduzido neste filme é o jovem e corajoso policial John Blake, interpretado por Joseph Gordon-Levitt (ator que apareceu em A Origem e 500 Dias Com Ela) de maneira madura e segura. Blake desempenha importante papel dentro da história, protagonizando alguns momentos-chave. Talvez o único ponto fraco dos novos personagens seja Miranda Tate (Marrion Cottilard), pois além de ser um pouco prejudicada por uma indefinição de roteiro quanto ao seu papel dentro da trama (algo essencial que só é revelado próximo do fim e que constitui o chamado plot-twist do filme – ou ponto de virada), Cottilard nunca entrega uma performance do mesmo nível da vista em seus filmes anteriores.

Christian Bale interpreta Bruce Wayne/Batman mais uma vez de maneira impecável, em uma atuação que transmite ao espectador todo peso que o herói tem de carregar para proteger Gotham City e as pessoas que ama. É tocante todo sacrifício que o personagem tem que ter (não apenas neste filme, mas em toda a trilogia) para transformar o Batman não em um simples combatente do crime, mas em um símbolo maior para os cidadãos se inspirarem. Nota-se ainda todo o esforço físico que Bale teve para fazer este filme, surgindo fragilizado, magro, barbudo e encurvado no começo da película e à medida que esta avança ele ganha força física e postura para vestir novamente o uniforme do Batman. Gary Oldman surge novamente muito bem como o incansável Comissário Gordon, personagem que sempre se mantem sereno e vigilante, mesmo quando Gotham, no início do filme, vive dias de paz. Já Michael Caine interpreta Alfred de maneira comovente, sendo responsável por duas das cenas mais dramáticas e emocionantes do longa (e perceba que em um importante diálogo de Alfred com Bruce Wayne, Nolan opta por cortar a trilha sonora e deixa toda a dramaticidade do momento entregue apenas às magníficas interpretações de Bale e Caine).

O filme conta com cenas de ação sensacionais e em grande escala (as explosões em várias partes de Gotham City e a briga generalizada perto do final são os melhores exemplos), muitas delas filmadas sem computação gráfica, o que reforça o tom realista perseguido por Nolan e sua equipe. E mesmo quando é necessário o uso de efeitos digitais, a sua utilização é tão orgânica e bem empregada que vários espectadores não se incomodarão com este fato. Reforça ainda o aspecto realista do filme a ótima fotografia de Wally Pfister (um dos melhores diretores de fotografia da atualidade), que emprega cores frias na maior parte da projeção. Há que se destacar as duas grandes cenas de luta entre Batman e Bane, com socos e chutes distribuídos de modo seco e brutal, sendo que na primeira dessas cenas Nolan escolhe novamente por cortar a trilha sonora para enfatizar o som de toda a pancadaria, o que dá uma intensidade maior à cena. Falando em trilha sonora, Hans Zimmer entrega outro trabalho magistral e com pequenas diferenças ao do já apresentado anteriormente em O Cavaleiro das Trevas , aumentando ainda mais a tensão em cenas que por si só já seriam tensas .

Contando com uma longa e extremamente bem executada cena de ação perto de seu final ( poucas vezes me senti tão tenso e atordoado assistindo a um filme; é como se Nolan tivesse comprimido uma temporada do seriado 24 horas nos últimos 20 – 30 minutos de filme, tamanho é o envolvimento emocional exigido nesses minutos), Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge entrega ainda aos fãs do homem-morcego diversas referências ao universo dos quadrinhos e possui um desfecho satisfatório que, ao mesmo tempo que acarreta uma certa discussão sobre o que terá realmente acontecido, deixa em aberto a possibilidade de possíveis continuações no bat-universo criado por Nolan. Resta a mim desejar boa sorte a Warner e ao diretor que ela escolher para um futuro filme de Batman (seja um reboot ou uma sequência dentro do universo já apresentado), pois, depois dessa espetacular trilogia dirigida por Christopher Nolan, certamente eles vão precisar se quiserem ao menos igualar o mesmo nível de excelência alcançado pelo diretor britânico.

Nota – 9,0