Momentos Antológicos do Cinema 07 – Os Caçadores da Arca Perdida (Riders of the Lost Ark, 1981) – Sequência de abertura e perseguição ao caminhão nazista

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Quando falei sobre a “Rider’s March”, tema de “Os Caçadores da Arca Perdida”, afirmei que Indiana Jones era o maior e mais icônico herói do cinema. Não só reafirmo o que disse, como digo mais: “Os Caçadores da Arca Perdida” é o melhor filme de aventura já feito; não há nenhum outro que chegue perto do nível de qualidade atingido por Steven Spielberg. E não só isso: se tivesse que fazer um top 10 dos melhores filmes de Spielberg, ficaria em dúvida se colocaria em primeiro “Os Caçadores da Arca Perdida” ou “Tubarão” (Jaws, 1975), pois, a cada vez que reassisto a ambos, os dois filmes só melhoram.

Ao lembrar de “Os Caçadores da Arca Perdida”, quatro coisas me vêm logo à mente: a própria figura de Indiana Jones (Harrison Ford de jaqueta, chapéu e chicote), a trilha sonora de John Williams, a sequência de abertura do filme e a sequência de perseguição ao caminhão nazista.

A sequência de abertura é uma das mais emblemáticas já feitas, pois Spielberg consegue, naquele início, apresentar o personagem ao público de forma a destacar seu espírito aventureiro e algumas de suas características marcantes em três momentos:

a) ao esperar alguns minutos após os créditos iniciais para revelar a identidade do herói (apenas quando este utiliza o chicote para atingir a mão de um homem que ia atirar nele, delimitando a importância daquele objeto para a composição do personagem);

b) quando Indiana Jones chega à caverna (cheia de armadilhas!) que contem o ídolo, Spielberg dá uma aula da relevância do tempo e espaço na elaboração de uma cena, pois após a caverna começar a desabar, Indiana Jones é traído e tem que escapar enquanto uma porta se fecha: observe como Spielberg foca entre o esforço do arqueólogo para sair de um buraco e o movimento da porta se fechando, o que cria a tensão necessária para o espectador se importar com o destino do personagem (há que se destacar que o personagem volta para pegar seu chicote – o que mostra novamente a importância do objeto para o herói, e também que depois ocorre a famosa cena de Indiana Jones fugindo da bola de pedra);

c) por fim, Indiana Jones escapa de vários índios correndo em plena selva amazônica, agarrando-se em um cipó como Tarzan (referência a um herói clássico) e ao entrar no avião, percebe que há uma cobra subindo por sua perna (o que serve para Spielberg já estabelecer o medo que o personagem tem de cobras – medo este que será importante em cena posterior do filme).

Estes três momentos coloquei abaixo:

A sequência da perseguição ao caminhão nazista é simplesmente uma das grandes sequências de ação da história do cinema: um casamento perfeito entre as imagens e a trilha  composta por John Williams.

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Momentos Antológicos do Cinema 06 – Rocky, Um Lutador – Treinamento

Rocky, Um Lutador (Rocky , 1976) é um dos meus dramas esportivos favoritos (talvez só perca para Touro Indomável de Martin Scorsese), pois o filme não é apenas sobre um lutador de boxe, mas sim sobre a determinação de um homem em sobreviver e em lutar para conseguir aquilo que quer, trazendo, por isto, até alguns aspectos neorrealistas.

Se eu tivesse que resumir este filme em uma só palavra ou expressão esta seria “força de vontade”. É tocante a força de vontade que o personagem de Sylvester Stallone (naquela que é a interpretação mais importante de sua carreira) mostra ao longo de todo o filme, mesmo com os diversos obstáculos que a vida lhe impõe. E não há um melhor momento do filme que mostra toda a superação de Rocky do que a sequência do treinamento ao som da música “Gonna Fly Now” de Bill Conti. Neste momento, a importância e o carinho  do espectador com Rocky são tamanhos (pois sabemos de todas as dificuldades que ele passou para chegar ali) que torcemos realmente para que ele consiga treinar e se esforçar o máximo possível para que possa derrotar Apollo Creed, seu adversário. Ver Rocky triunfante no alto das escadarias do Museu de Arte da Filadélfia é o retrato acabado da superação  (perceba que o diretor John G. Avildsen em dado momento nesta cena filma Stallone de baixo para cima, dando a impressão de que Rocky se transformou em um gigante, um vitorioso).

Rocky é um filmaço e ganhou em 1977 os Oscars de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Montagem. Não vi ainda filme que retrate melhor a determinação humana do que este. Tenho certeza que qualquer um que tiver metade da força de vontade que o personagem Rocky demonstra neste filme terá sucesso naquilo que se propõe fazer ou no objetivo que quer alcançar.

E que cinéfilo nunca pensou em algum dia subir correndo as escadarias do Museu de Arte de Filadélfia?

Momentos Antológicos do Cinema 05 – Pacto de Sangue (Double Indemnity,1944) – I Killed Him

O noir é um gênero que possui várias frases marcantes; frases que revelam a moral distorcida dos policiais, detetives durões, femme fatales e gangsters que habitam os cenários urbanos hostis e escuros, onde pessoas bebem e fumam o tempo todo e trocam ofensas como se tivessem conversando normalmente enquanto tomam o café da manhã.

De todas as frases de todos os filmes noir que eu já assisti até agora (e olhe que não foram poucos), talvez aquela que melhor sintetize todo este fascinante gênero cinematográfico seja a dita pelo personagem Walter Neff (interpretado por Fred MacMurray) em Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944).

Ele, logo no início do filme (a história é narrada em flashback), confessa (diante de um gravador) para seu amigo e chefe Keys (o magnífico Edward G. Robinson) ter matado o marido de Phyllis Dietrichson (umas melhores femme fatales do cinema, interpretada por Barbara Stanwyck) – com a ajuda dela, diga-se de passagem –  em troca do dinheiro do seguro de vida que o marido havia feito com ele (Neff é agente de seguros) e também para poder ficar com Phyllis.

A frase é a seguinte: “Yes, I killed him. I killed him for money – and a woman – and I didn’t get the money and I didn’t get the woman. Pretty, isn’t it?” (“Sim, eu matei ele. Matei ele pelo dinheiro e pela mulher. E eu não fiquei nem com o dinheiro nem com a mulher. Bonito, não?”). Mais noir do que isto, impossível! Na verdade, este é apenas um dos vários momentos antológicos que o filme possui.

Esta verdadeira obra-prima do cinema (um dos meus 20 filmes favoritos) foi dirigida pelo mestre Billy Wilder, sendo que o roteiro do filme (uma adaptação do romance homônimo de James M. Cain) foi escrito pelo próprio Wilder em parceria com ninguém mais ninguém menos que Raymond Chandler (na minha opinião, o melhor escritor noir que já pisou na Terra).

Abaixo, coloco todo o trecho do filme em que a fala citada aparece (a fala só acontece no fim da cena) e também mais algumas linhas do roteiro para quem quiser acompanhar parte do que diz o personagem de Fred MacMurray.

Walter Neff: “Dear Keyes, I suppose you’ll call this a confession when you hear it… Well, I don’t like the word confession, I just want to set you right about something you couldn’t see because it was smack up against your nose. You think you’re such a hot potato as a claims manager; such a wolf on a phony claim… Maybe y’are. But let’s take a look at that Dietrichson claim… accident and double indemnity. You were pretty good in there for awhile Keyes… you said it wasn’t an accident, check. You said it wasn’t suicide, check. You said it was murder… check.”

Walter Neff: “Yes, I killed him. I killed him for money – and a woman – and I didn’t get the money and I didn’t get the woman. Pretty, isn’t it?”

Momentos Antológicos do Cinema 04 – Jules e Jim (Jules et Jim, 1962) – Le tourbillon

De todos os momentos antológicos de Jules e Jim (Jules et Jim, 1962), um dos mais importantes filmes da nouvelle vague francesa e de François Truffaut, este é o meu favorito. A cena de Jeanne Moreau cantando “Le tourbillon” é tão bela que nada mais precisa ser dito: basta apenas vê-la e ouvi-la.

Coloco abaixo a letra da música para quem quiser acompanhar:

LE TOURBILLON

Elle avait des bagues a chaque doigt,
Des tas de bracelets autour des poignets
Et puis elle chantait avec une voix,
Qui sitôt m’enjôla.

Elle avait des yeux, des yeux de paille,
Qui me fascinaient, qui me fascinaient.
Y avait l’ovale de son visage pale,
De femme fatale qui me fut fatale.
De femme fatale qui me fut fatale.

On s’est connu, on s’est reconnu,
On s’est perdu de vue, on s’est reperdu de vue,
On s’est retrouve, on s’est rechauffe,
Puis on s’est sépare.

Chacun pour soi est reparti,
Dans le tourbillon de la vie.
Je l’ai revue un soir aie aie aie,
Ça fait déjà un fameux bail.
Ça fait déjà un fameux bail.

Au son des banjos je l’ai reconnu.
Ce curieux sourire qui m’avait tant plu.
Sa voix si fatale, son beau visage pale
M’émurent plus que jamais.

Je me suis saoule en l’écoutant.
L’alcool fait oublier le temps.
Je me suis reveille en sentant
Des baisers sur mon front brûlant.
Des baisers sur mon front brûlant.

On s’est connu, on s’est reconnu,
On s’est perdu de vue, on s’est reperdu de vue,
On s’est retrouve, on s’est rechauffe,
Puis on s’est sépare.

Chacun pour soi est reparti.
Dans le tourbillon de la vie.
Je l’ai revue un soir ah la la
Elle est retombée dans mes bras.
Elle est retombée dans mes bras.

Quand on s’est connu, quand on s’est reconnu,
Pourquoi se perdre de vue, se reperdre de vue?
Quand on s’est retrouve, quand on s’est rechauffe,
Pourquoi se séparer?

Alors tous deux on est reparti
Dans le tourbillon de la vie
On a continue a tourner
Tous les deux enlaces.
Tous les deux enlaces.
Tous les deux enlaces.

Momentos Antológicos do Cinema 03 – A Marca da Maldade (Touch of Evil, 1958) – Plano-sequência inicial

A Marca da Maldade ( Touch of Evil, 1958 ), de Orson Welles, é não apenas um dos melhores filmes noir já feitos, como também é um dos melhores filmes da história do cinema ( alguns consideram ele melhor, inclusive, do que Cidadão Kane, opinião da qual não compartilho, mas respeito).

Não bastasse isto, esta obra-prima possui aquele que é o plano-sequência ( plano que registra a ação de uma sequência inteira de acontecimentos, sem nenhum corte ) mais famoso e discutido de todos: a cena inicial em que acompanhamos um sujeito colocar uma bomba em um carro e toda a trajetória do veículo (passando por diversos transeuntes e personagens do filme) até a explosão da bomba no final da cena.

É um aula de movimento de câmera e uma mostra de todo o virtuosismo de Orson Welles, um verdadeiro gênio do cinema.

Momentos Antológicos do Cinema 02 – Casablanca (1942) – “Here’s Looking At You, Kid”

Casablanca talvez seja o filme que possui mais falas e cenas inesquecíveis de todo o cinema. E, para mim, esta é uma das melhores cenas do filme e uma das melhores da história do cinema. Então, em vez de falar mais sobre ela, preferi transcrever abaixo a parte do roteiro (que, diga-se de passagem, é um dos melhores roteiros já feitos) que contém a linha de diálogos desta cena.

E, se você ainda não viu Casablanca, então não pode ser considerado um cinéfilo. Corra para assistir e redimir este pecado de sua vida!

Rick: Last night we said a great many things. You said I was to do the thinking for both of us. Well, I’ve done a lot of it since then, and it all adds up to one thing: you’re getting on that plane with Victor where you belong. 
Ilsa: But, Richard, no, I… I… 
Rick: Now, you’ve got to listen to me! You have any idea what you’d have to look forward to if you stayed here? Nine chances out of ten, we’d both wind up in a concentration camp. Isn’t that true, Louie? 
Captain Renault: I’m afraid Major Strasser would insist. 
Ilsa: You’re saying this only to make me go. 
Rick: I’m saying it because it’s true. Inside of us, we both know you belong with Victor. You’re part of his work, the thing that keeps him going. If that plane leaves the ground and you’re not with him, you’ll regret it. Maybe not today. Maybe not tomorrow, but soon and for the rest of your life. 
Ilsa: But what about us? 
Rick: We’ll always have Paris. We didn’t have, we, we lost it until you came to Casablanca. We got it back last night. 
Ilsa: When I said I would never leave you. 
Rick: And you never will. But I’ve got a job to do, too. Where I’m going, you can’t follow. What I’ve got to do, you can’t be any part of. Ilsa, I’m no good at being noble, but it doesn’t take much to see that the problems of three little people don’t amount to a hill of beans in this crazy world. Someday you’ll understand that. 
[Ilsa lowers her head and begins to cry
Rick: Now, now… 
[Rick gently places his hand under her chin and raises it so their eyes meet
Rick: Here’s looking at you kid. 

Momentos Antológicos do Cinema 01 – No Silêncio da Noite ( In a Lonely Place, 1950) – “I was born when she kissed me. I died when she left me. I lived a few weeks while she loved me”.

“No Silêncio da Noite” ( In a Lonely Place), filme noir de 1950 dirigido por Nicholas Ray é um dos meus preferidos de todos os tempos. É a típica obra-prima: direção magistral de Ray, atuações primorosas de Humphrey Bogart (talvez a sua melhor atuação) e Gloria Grahame, trilha sonora impactante e inesquecível e um final amargo perfeito, como só os melhores noir possuem.

Não bastasse tudo isso, este clássico possui uma das frases mais bonitas e ao mesmo tempo tristes da história do cinema, dita pelo personagem de Bogart: “I was born when she kissed me. I died when she left me. I lived a few weeks while she loved me”.

Abaixo, coloco o video desse momento único da sétima arte: