Momentos Antológicos do Cinema 05 – Pacto de Sangue (Double Indemnity,1944) – I Killed Him

O noir é um gênero que possui várias frases marcantes; frases que revelam a moral distorcida dos policiais, detetives durões, femme fatales e gangsters que habitam os cenários urbanos hostis e escuros, onde pessoas bebem e fumam o tempo todo e trocam ofensas como se tivessem conversando normalmente enquanto tomam o café da manhã.

De todas as frases de todos os filmes noir que eu já assisti até agora (e olhe que não foram poucos), talvez aquela que melhor sintetize todo este fascinante gênero cinematográfico seja a dita pelo personagem Walter Neff (interpretado por Fred MacMurray) em Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944).

Ele, logo no início do filme (a história é narrada em flashback), confessa (diante de um gravador) para seu amigo e chefe Keys (o magnífico Edward G. Robinson) ter matado o marido de Phyllis Dietrichson (umas melhores femme fatales do cinema, interpretada por Barbara Stanwyck) – com a ajuda dela, diga-se de passagem –  em troca do dinheiro do seguro de vida que o marido havia feito com ele (Neff é agente de seguros) e também para poder ficar com Phyllis.

A frase é a seguinte: “Yes, I killed him. I killed him for money – and a woman – and I didn’t get the money and I didn’t get the woman. Pretty, isn’t it?” (“Sim, eu matei ele. Matei ele pelo dinheiro e pela mulher. E eu não fiquei nem com o dinheiro nem com a mulher. Bonito, não?”). Mais noir do que isto, impossível! Na verdade, este é apenas um dos vários momentos antológicos que o filme possui.

Esta verdadeira obra-prima do cinema (um dos meus 20 filmes favoritos) foi dirigida pelo mestre Billy Wilder, sendo que o roteiro do filme (uma adaptação do romance homônimo de James M. Cain) foi escrito pelo próprio Wilder em parceria com ninguém mais ninguém menos que Raymond Chandler (na minha opinião, o melhor escritor noir que já pisou na Terra).

Abaixo, coloco todo o trecho do filme em que a fala citada aparece (a fala só acontece no fim da cena) e também mais algumas linhas do roteiro para quem quiser acompanhar parte do que diz o personagem de Fred MacMurray.

Walter Neff: “Dear Keyes, I suppose you’ll call this a confession when you hear it… Well, I don’t like the word confession, I just want to set you right about something you couldn’t see because it was smack up against your nose. You think you’re such a hot potato as a claims manager; such a wolf on a phony claim… Maybe y’are. But let’s take a look at that Dietrichson claim… accident and double indemnity. You were pretty good in there for awhile Keyes… you said it wasn’t an accident, check. You said it wasn’t suicide, check. You said it was murder… check.”

Walter Neff: “Yes, I killed him. I killed him for money – and a woman – and I didn’t get the money and I didn’t get the woman. Pretty, isn’t it?”

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Momentos Antológicos do Cinema 03 – A Marca da Maldade (Touch of Evil, 1958) – Plano-sequência inicial

A Marca da Maldade ( Touch of Evil, 1958 ), de Orson Welles, é não apenas um dos melhores filmes noir já feitos, como também é um dos melhores filmes da história do cinema ( alguns consideram ele melhor, inclusive, do que Cidadão Kane, opinião da qual não compartilho, mas respeito).

Não bastasse isto, esta obra-prima possui aquele que é o plano-sequência ( plano que registra a ação de uma sequência inteira de acontecimentos, sem nenhum corte ) mais famoso e discutido de todos: a cena inicial em que acompanhamos um sujeito colocar uma bomba em um carro e toda a trajetória do veículo (passando por diversos transeuntes e personagens do filme) até a explosão da bomba no final da cena.

É um aula de movimento de câmera e uma mostra de todo o virtuosismo de Orson Welles, um verdadeiro gênio do cinema.

Especial Alfred Hitchcock 01 – Pacto Sinistro (Strangers on a Train, 1957)

Introdução ao Especial Alfred Hitchcock

Meu irmão, Guilherme, escreveu várias criticas de filmes de Alfred Hitchcock para sua matéria  de Linguagem Cinematográfica do curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia. Vendo a grande quantidade de criticas sobre os principais filmes de um melhores diretores de todos os tempos, resolvi que era uma boa idéia fazer esse Especial Hitchcock e postá-las aqui. Então, a partir de hoje, colocarei no blog, quinzenalmente, uma crítica de um filme do mestre do suspense. Claro que não irei esgotar toda a filmografia de Hitchcock aqui, pois ela é muito extensa; a proposta é criticar alguns de seus principais filmes. Quem ainda não conhece os filmes de Hitchcock, será uma ótima oportunidade de ir atrás e conhecer a obra desse gênio. E, quem já conhece, poderá reassisti-los para reviver momentos maravilhosos do cinema.

Pacto Sinistro (Strangers on a Train, 1957)

Por Guilherme Vasconcelos

Na grande maioria de seus filmes, Hitchcock não se interessa em construir uma trama de revelação, como faz Agatha Christie em seus livros. O diretor, via de regra, já dar a conhecer ao espectador, no início de suas produções, quem é o assassino ou quem é o falso culpado. Em Pacto Sinistro, o desenrolar do enredo é semelhante. Mas esta é, talvez, a obra do mestre com mais camadas e subcamadas de interpretação. Pacto Sinistro traz uma complexificação de suas constantes temáticas.

Guy Haines (Farley Granger) é um reconhecido tenista que passa por um momento turbulento no casamento com Miriam Joyce (Kasey Rogers). Ele espera ansiosamente a conclusão de um processo de divórcio para poder se casar com Anne Morton (Ruth Roman), filha de um importante senador com a qual mantém um caso. Certo dia, enquanto viaja de trem para se encontrar com Miriam e resolver os problemas conjugais, Haines conhece Bruno Anthony (Robert Walker), um milionário desocupado de personalidade excêntrica.

Ambos iniciam uma conversa aparentemente inofensiva, mas Bruno logo muda de tom e passa a discorrer em detalhes sobre a vida profissional e particular de Haines. Unidos pelo acaso – o elemento desencadeador do inferno astral do protagonista no cinema hitchcokiano –, ambos falam dos obstáculos de suas vidas. Guy quer se livrar da ex-esposa e Bruno, um homem edipiano, pretende matar seu pai. Malicioso, Bruno propõe então um crime perfeito: mataria a ex-esposa de Guy e este, em troca, mataria seu pai. Cometidos por desconhecidos, explica Bruno, os crimes seriam desprovidos de motivação, o que dificultaria a tarefa de encontrar e provar a culpabilidade dos assassinos. Guy leva tudo na brincadeira e, para acabar com aquela conversa macabra, finge concordar com o pacto.

Uma comédia de humor negro, Pacto Sinistro é, na verdade, um filme que exala ambivalências e significados implícitos. Guy é um homem atormentado por seus impulsos e não sabe se se associa ao maníaco ou se fica do lado da polícia – a cena em que, na escuridão, ele atravessa o portão e se põe ao lado de Bruno para se esconder dos policiais e a seqüência em que vai à casa de Bruno portando um revólver para encontrar o pai dele são claras referências a esse estado de hesitação. Bruno, por sua vez, é a manifestação dos desejos inconscientes e inconfessáveis de Guy – é isso que Hitchcock sugere quando exibe as mãos furiosas do protagonista simulando um estrangulamento enquanto diz à namorada, no telefone, que seria capaz de matar a ex-mulher.

Mais do que isso: Hitchcock insinua, sempre de maneira elegante e nada vulgar, que a relação entre os dois é de natureza sexual. Bruno nutre uma admiração, uma idolatria por Guy e está sempre tentando seduzi-lo. O cruzamento das linhas ferroviárias, os sapatos que se tocam e o isqueiro com raquetes de tênis cruzadas são a materialização da conexão carnal, nebulosa e erótica entre o Bem e o Mal. São signos do acasalamento, da sedução, da cumplicidade. Em outras palavras: utilizando-se de uma alegoria homossexual, Hitchcock expressa à idéia de que o vício e a virtude são irmãos gêmeos que se aproximam ou se repelem ao sabor das circunstâncias, do acaso. Guy é homem da claridade, ao passo que Bruno se move sempre na escuridão. O assassinato no parque de diversões é à noite. A aparição enegrecida nas escadarias do Pentágono contrasta com a branquidão do prédio. A fotografia, a cargo do costumeiro colaborador Robert Burks, é primorosa. Ela é parte integrante da narrativa e atua realçando as personalidades, as idiossincrasias dos personagens.

Nessa relação amorosa implícita, Bruno desempenha o papel do dominador e Guy é a parte submissa. Dominado pela mãe e em constante atrito com o pai autoritário, o maníaco precisa de alguém para pôr em prática seus desejos possessivos. Por isso, mata a ex-esposa do tenista – isto é, para tentar ocupar o seu lugar – e encara a filha do senador como adversária. Nas seqüências finais, em que Hitchcock dá uma aula de alternância dramática através da montagem ao opor ações paralelas (o jogo de tênis de um lado e a corrida de Bruno para colocar o isqueiro na cena do crime a fim de incriminar Guy, do outro) com extrema eficiência, prevalece a tensão e a expectativa que antecede a consumação da cópula.

Para reaver o isqueiro (símbolo da firmação do pacto, dos destinos que se cruzam e elemento que possibilita a construção da estrutura narrativa binária, isto é, com dois eixos condutores das ações), Guy se envolve em uma luta corporal com Bruno numa cena que se assemelha ao ato sexual. O louco extravagante morre no embate e o isqueiro, de objeto incriminador, passa a ser a prova da inocência do protagonista. Guy, então, se livra do seu antagônico, do lado perverso de sua personalidade, e pode reiniciar o relacionamento com Anne.

E Hitchcock, mais uma vez, nos entrega uma obra de gênio, muito mais complexa e sutil do que parece à primeira vista. Pacto Sinistro, com suas metáforas, ambigüidades e subtextos, é, em essência, um grande filme sobre como o acaso é capaz de desvelar a complementaridade entre o Bem e o Mal.

Nota – 8,5

Momentos Antológicos do Cinema 01 – No Silêncio da Noite ( In a Lonely Place, 1950) – “I was born when she kissed me. I died when she left me. I lived a few weeks while she loved me”.

“No Silêncio da Noite” ( In a Lonely Place), filme noir de 1950 dirigido por Nicholas Ray é um dos meus preferidos de todos os tempos. É a típica obra-prima: direção magistral de Ray, atuações primorosas de Humphrey Bogart (talvez a sua melhor atuação) e Gloria Grahame, trilha sonora impactante e inesquecível e um final amargo perfeito, como só os melhores noir possuem.

Não bastasse tudo isso, este clássico possui uma das frases mais bonitas e ao mesmo tempo tristes da história do cinema, dita pelo personagem de Bogart: “I was born when she kissed me. I died when she left me. I lived a few weeks while she loved me”.

Abaixo, coloco o video desse momento único da sétima arte: