Crítica – Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge


Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge  (The Dark Knight Rises, 2010) é um filmaço que fecha de maneira épica a trilogia do homem-morcego dirigida por Christopher Nolan, tornando-se, desde já, uma das melhores trilogias do cinema (ao lado de O Poderoso Chefão – essa, sem dúvidas, a melhor de todas – , O Senhor dos Anéis, De Volta para o Futuro, os três filmes clássicos de Indiana Jones – o quarto filme deve ser ignorado – , a trilogia original de Star Wars, Toy Story e a famosa trilogia dos dólares de Sergio Leone que conta com Clint Eastwood interpretando o papel do Homem Sem Nome).

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge talvez não alcance o nível de perfeição atingido por Nolan em O Cavaleiro das Trevas, isso porque há alguns pequenos problemas de roteiro e também O Cavaleiro das Trevas contava com uma atuação espetacular de Heath Ledger como o Coringa (um dos maiores vilões da história do cinema), – algo difícil de ser igualado –, mas o tom épico, trágico, realista e emocionante que Nolan atinge nesse terceiro filme é digno de aplausos, conseguindo amarrar as pontas dos outros dois filmes e entregar uma conclusão de saga que será lembrada por muitos anos.

Todos os atores estão muito bem em seus papéis, a começar pela gatuna Selina Kyle interpretada por Anne Hathaway, em uma das suas melhores atuações até hoje. A sua Mulher-Gato é dissimulada (a cena dela em um bar depois da invasão da polícia ao local e a cena inicial na Mansão Wayne ilustram isto bem) e sexy ao mesmo tempo, mostrando-se parte essencial da trama e tendo algumas cenas (principalmente as de ação) ao lado de Batman que vão deixar os fãs de quadrinhos com um sorriso maior que o do Coringa. Tom Hardy interpreta Bane de forma imponente, transformando-o em um vilão ameaçador física e psicologicamente. Contribui para isso não apenas a intepretação vocal de Hardy (que é bastante importante, já que ele sempre surge com o rosto encoberto por uma máscara ao longo do filme), como também o fato de que Nolan optou por filmá-lo na maioria das vezes de baixo para cima, dando uma maior grandiosidade ao vilão. Outro personagem introduzido neste filme é o jovem e corajoso policial John Blake, interpretado por Joseph Gordon-Levitt (ator que apareceu em A Origem e 500 Dias Com Ela) de maneira madura e segura. Blake desempenha importante papel dentro da história, protagonizando alguns momentos-chave. Talvez o único ponto fraco dos novos personagens seja Miranda Tate (Marrion Cottilard), pois além de ser um pouco prejudicada por uma indefinição de roteiro quanto ao seu papel dentro da trama (algo essencial que só é revelado próximo do fim e que constitui o chamado plot-twist do filme – ou ponto de virada), Cottilard nunca entrega uma performance do mesmo nível da vista em seus filmes anteriores.

Christian Bale interpreta Bruce Wayne/Batman mais uma vez de maneira impecável, em uma atuação que transmite ao espectador todo peso que o herói tem de carregar para proteger Gotham City e as pessoas que ama. É tocante todo sacrifício que o personagem tem que ter (não apenas neste filme, mas em toda a trilogia) para transformar o Batman não em um simples combatente do crime, mas em um símbolo maior para os cidadãos se inspirarem. Nota-se ainda todo o esforço físico que Bale teve para fazer este filme, surgindo fragilizado, magro, barbudo e encurvado no começo da película e à medida que esta avança ele ganha força física e postura para vestir novamente o uniforme do Batman. Gary Oldman surge novamente muito bem como o incansável Comissário Gordon, personagem que sempre se mantem sereno e vigilante, mesmo quando Gotham, no início do filme, vive dias de paz. Já Michael Caine interpreta Alfred de maneira comovente, sendo responsável por duas das cenas mais dramáticas e emocionantes do longa (e perceba que em um importante diálogo de Alfred com Bruce Wayne, Nolan opta por cortar a trilha sonora e deixa toda a dramaticidade do momento entregue apenas às magníficas interpretações de Bale e Caine).

O filme conta com cenas de ação sensacionais e em grande escala (as explosões em várias partes de Gotham City e a briga generalizada perto do final são os melhores exemplos), muitas delas filmadas sem computação gráfica, o que reforça o tom realista perseguido por Nolan e sua equipe. E mesmo quando é necessário o uso de efeitos digitais, a sua utilização é tão orgânica e bem empregada que vários espectadores não se incomodarão com este fato. Reforça ainda o aspecto realista do filme a ótima fotografia de Wally Pfister (um dos melhores diretores de fotografia da atualidade), que emprega cores frias na maior parte da projeção. Há que se destacar as duas grandes cenas de luta entre Batman e Bane, com socos e chutes distribuídos de modo seco e brutal, sendo que na primeira dessas cenas Nolan escolhe novamente por cortar a trilha sonora para enfatizar o som de toda a pancadaria, o que dá uma intensidade maior à cena. Falando em trilha sonora, Hans Zimmer entrega outro trabalho magistral e com pequenas diferenças ao do já apresentado anteriormente em O Cavaleiro das Trevas , aumentando ainda mais a tensão em cenas que por si só já seriam tensas .

Contando com uma longa e extremamente bem executada cena de ação perto de seu final ( poucas vezes me senti tão tenso e atordoado assistindo a um filme; é como se Nolan tivesse comprimido uma temporada do seriado 24 horas nos últimos 20 – 30 minutos de filme, tamanho é o envolvimento emocional exigido nesses minutos), Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge entrega ainda aos fãs do homem-morcego diversas referências ao universo dos quadrinhos e possui um desfecho satisfatório que, ao mesmo tempo que acarreta uma certa discussão sobre o que terá realmente acontecido, deixa em aberto a possibilidade de possíveis continuações no bat-universo criado por Nolan. Resta a mim desejar boa sorte a Warner e ao diretor que ela escolher para um futuro filme de Batman (seja um reboot ou uma sequência dentro do universo já apresentado), pois, depois dessa espetacular trilogia dirigida por Christopher Nolan, certamente eles vão precisar se quiserem ao menos igualar o mesmo nível de excelência alcançado pelo diretor britânico.

Nota – 9,0

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