Top 20 – Filmes que estrearam no Brasil em 2010

Assim como eu fiz com o ano de 2009, coloco aqui o meu top 20 dos filmes que estrearam em 2010 nos cinemas brasileiros. Mais uma vez: o propósito de uma lista como esta é o de que você vá atrás e assista aos filmes mencionados (se já viu todos, ótimo; se não viu algum, vá atrás e assista: garanto que você não irá perder seu tempo).

Claro que eu não vi todos os filmes que estrearam no Brasil em 2010, apenas fiz uma seleção daquilo que vi de melhor. Além disto, há alguns filmes importantes de 2010 que não vi ainda e que acredito que mereçam ser vistos (filmes que provavelmente entrariam nesta lista ou, pelo menos, seriam considerados): “A Fita Branca”, “Ervas Daninhas” e “Sempre Bela”. Portanto, apesar de estes filmes não estarem na lista por eu não tê-los visto ainda, não significa que devam ser desprezados. Coloquei ainda 6 menções honrosas, pois acredito que 2010 foi um ano recheado de ótimos filmes e tentei abranger ao máximo o que foi lançado.

Menções honrosas:

– Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works)_Woody Allen

– A Estrada (The Road)_John Hillcoat

– Sede de Sangue (Bakjwi)_Chan-Wook Park

– Zumbilândia (Zombieland)_Ruben Fleischer

– Como Treinar o Seu Dragão (How To Train Your Dragon)_Dean Deblois, Chris Sanders

– Vencer (Vincere)_Marco Bellochio

Top 20

20 – Coração Louco (Crazy Heart)_Scoot Cooper

19 – Zona Verde (Green Zone)_Paul Greengrass

18 – Enterrado Vivo (Buried)_Rodrigo Cortés

17 – Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. The World)_Edgar Wright

16 – Direito de Amar (A Single Man)_Tom Ford

15 – Amor Sem Escalas (Up In The Air)_Jason Reitman

14 – Atração Perigosa (The Town)_Ben Affleck

13 – Mary e Max (Mary and Max)_Adam Elliot

12 – Kick-ass_Matthew Vaughn

11 – Guerra ao Terror (The Hurt Locker)_Kathryn Bigelow

10 – A Rede Social (The Social Network)_David Fincher

09 – À Prova de Morte (Death Proof)_Quentin Tarantino

08 – O Profeta (Un Prophète)_Jacques Audiard

07 – Ilha do Medo (Shutter Island)_Martin Scorsese

06 – Senna_Asif Kapadia

05 – Toy Story 3_Lee Unkrich

04 – A Origem (Inception)_Christopher Nolan

03 – O Escritor Fantasma (The Ghost Writer)_Roman Polanski

02 – O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto De Sus Ojos)_Juan José Campanella

01 – Tropa de Elite 2_José Padilha

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Crítica – A Origem

Em A Origem (Inception, 2010) , Christopher Nolan consegue misturar a complexidade narrativa de Amnésia e a tensão de Batman: O Cavaleiro das Trevas, atingindo um resultado magnífico. O roteiro do filme (escrito pelo próprio Nolan) gira em torno de Don Cobb (Leonardo DiCaprio), um vigarista intelectual cuja a especialidade é adentrar nas mentes de executivos durante os sonhos para extrair segredos industriais. Cobb, no início do filme, é contratado por uma empresa para, juntamente com seu comparsa Arthur  (Joseph Gordon-Levitt), roubar um segredo da mente do misterioso empresário Saito (Ken Watanabe). Porém, tendo Saito sido treinado para se defender de invasões desse tipo, e, sabotado pela projeção que o seu subconsciente faz de sua esposa, Mal (Marion Cotillard), Cobb vê seu plano dar errado. Saito, então, faz uma proposta para Cobb: em troca de poder retornar para os EUA e, consequentemente, aos seus filhos (Cobb não pode mais retornar ao seu país por ser procurado pela polícia), ele deve não retirar, mas implantar uma ideia  (algo que ele não está habituado a fazer) na mente do jovem empresário Robert Fischer (Cillian Murphy), que herdará do seu pai o comando da empresa concorrente de Saito.

A partir desse ponto, ao mesmo tempo que o personagem de DiCaprio vai atrás de outras pessoas para poder executar seu elaborado plano – há desde a arquiteta dos sonhos Ariadne (Ellen Page), passando pelo especialista em químicos Yusuf (Dileep Rao) e o “falsificador” Eames (Tom Hardy) – Nolan nos apresenta a vários conceitos interessantes de forma precisa – “limbo”, “totem”, “sonhos dentro de sonhos”, “compartilhamento de sonhos”, etc, são expressões que o espectador deve ficar atento – e sempre confiando na inteligência do público (algo raro nas produções cinematográficas atuais) para acompanhar e entender a trama. Desse modo, o filme requer uma dose extra de atenção por parte da platéia (que, em sua grande maioria, está acostumada a filmes que possuem enredos “mastigados” demais), pois a intenção de Nolan é justamente essa: a de que o espectador participe ativamente da história contada, para resolver os mistérios apresentados e, ao final, tirar suas próprias conclusões sobre o que acabou de presenciar (o final do filme, diga-se de passagem, é brilhante ao deixar margem para diversas interpretações).

Do ponto de vista técnico, o filme é perfeito, pois, ao tratar de  diferentes níveis de sonho  que possuem durações de tempo diferentes, seria fácil confundir o público. No entanto, graças a genialidade do roteiro e da direção  de Nolan – em vários momentos o diretor emprega a câmera lenta para demonstrar que o tempo está transcorrendo, naquele determinado ponto, de maneira mais devagar – e a montagem de Lee Smith, a narrativa do filme se torna completamente compreensível e dinâmica (o filme nunca fica chato ou cansativo, muito pelo contrário, a ação sempre se faz presente).

A fotografia do filme ficou a cargo de Wally Pfister (o mesmo de Batman:O Cavaleiro das Trevas  e que, posteriormente, trabalharia com Nolan novamente em Batman:O Cavaleiro das Trevas Ressurge) , que realiza um trabalho bem competente ao dar uma identidade visual distinta a cada sonho. Pfister e Nolan, juntamente com a equipe de efeitos especiais, entregam cenas espetaculares à audiência, sendo que cada cena, enquadramento, sequência  e efeito especial tem sua razão de existir. Como exemplo de cena espetacular, há a luta em gravidade zero, no hotel, protagonizada por Arthur e a cena do café envolvendo Ariadne e Cobb, na qual há diversas explosões dentro do sonho.Deve-se mencionar ainda, dentro dos aspectos técnicos, a fantástica trilha sonora de Hans Zimmer, que realiza aqui um dos seus melhores trabalhos (farei, posteriormente, uma seção “Trilha Sonora” de A Origem com as músicas de Hans Zimmer).

E, se tudo isso não bastasse para tornar A Origem um filme sensacional, Nolan consegue  ainda que cada ator do seu  elenco estelar tenha uma interpretação perfeita para o seu papel. Leonardo DiCaprio, ao surgir como um homem fragilizado devido ao seu passado, embora extremamente competente naquilo que faz, entrega uma interpretação tão boa quanto a que teve em Ilha do Medo (filme de Martin Scorsese e com temática uma pouco parecida com A Origem), confimando-se como um ótimo ator que merece, inclusive, maior reconhecimento em festivais e premiações.

Marion Cotillard, na minha opinião uma das atrizes mais lindas e competentes do cinema atual (há que se ressaltar, porém, a sua atuação não tão boa em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge), surge como uma mulher sedutora, uma típica femme fatale, que, ao mesmo tempo que faz com que Don relembre momentos felizes do seu passado, representa  uma ameaça aos objetivos e planos do mesmo, sabotando-os.

Os demais personagens, apesar de não serem tão desenvolvidos ao longo do filme, jamais deixam de ser interessantes ou importantes. Joseph Gordon-Levitt, em mais um papel de destaque, interpreta seu Arthur de maneira a demonstrar lealdade a Cobb e uma certeza em tudo aquilo que está realizando durante a execução do plano, fazendo com que o espectador confie em suas ações. Já Ellen Page, que divide com Gordon-Levitt uma cena bastante divertida, se torna a guia do espectador (tal qual a personagem Ariadne da mitologia grega) durante o filme, sendo um laço constante de Cobb ao longo da trama. E, se Tom Hardy confere a Eames um tom sarcástico, convertendo-o num canalha que todos adoram, Ken Watanabe se apresenta de maneira a dar um ar misterioso e contido a Saito. Completam ainda o elenco Cillian Murphy, que tem seu momento de maior destaque no final do filme,  e os veteranos Tom Berenger (que não havia feito nada de importante durante anos) e Michael Caine (ator que se tornou figura carimbada nos filmes de Nolan).

Com A Origem, Nolan nos entrega um blockbuster que sabe unir entretenimento e conteúdo, algo dificil de se fazer e que só poucos diretores conseguiram até hoje (entre eles, Steven Spielberg, por exemplo), confirmando-se, assim, com um dos grandes cineastas de sua geração (ao lado de Paul Thomas Anderson, David Fincher e Darren Aronofsky, só para citar alguns); um filme inteligente e que sabe reunir influências de obras anteriores em algo original e extremamente empolgante.

Nota – 9,0

Crítica – Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge


Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge  (The Dark Knight Rises, 2010) é um filmaço que fecha de maneira épica a trilogia do homem-morcego dirigida por Christopher Nolan, tornando-se, desde já, uma das melhores trilogias do cinema (ao lado de O Poderoso Chefão – essa, sem dúvidas, a melhor de todas – , O Senhor dos Anéis, De Volta para o Futuro, os três filmes clássicos de Indiana Jones – o quarto filme deve ser ignorado – , a trilogia original de Star Wars, Toy Story e a famosa trilogia dos dólares de Sergio Leone que conta com Clint Eastwood interpretando o papel do Homem Sem Nome).

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge talvez não alcance o nível de perfeição atingido por Nolan em O Cavaleiro das Trevas, isso porque há alguns pequenos problemas de roteiro e também O Cavaleiro das Trevas contava com uma atuação espetacular de Heath Ledger como o Coringa (um dos maiores vilões da história do cinema), – algo difícil de ser igualado –, mas o tom épico, trágico, realista e emocionante que Nolan atinge nesse terceiro filme é digno de aplausos, conseguindo amarrar as pontas dos outros dois filmes e entregar uma conclusão de saga que será lembrada por muitos anos.

Todos os atores estão muito bem em seus papéis, a começar pela gatuna Selina Kyle interpretada por Anne Hathaway, em uma das suas melhores atuações até hoje. A sua Mulher-Gato é dissimulada (a cena dela em um bar depois da invasão da polícia ao local e a cena inicial na Mansão Wayne ilustram isto bem) e sexy ao mesmo tempo, mostrando-se parte essencial da trama e tendo algumas cenas (principalmente as de ação) ao lado de Batman que vão deixar os fãs de quadrinhos com um sorriso maior que o do Coringa. Tom Hardy interpreta Bane de forma imponente, transformando-o em um vilão ameaçador física e psicologicamente. Contribui para isso não apenas a intepretação vocal de Hardy (que é bastante importante, já que ele sempre surge com o rosto encoberto por uma máscara ao longo do filme), como também o fato de que Nolan optou por filmá-lo na maioria das vezes de baixo para cima, dando uma maior grandiosidade ao vilão. Outro personagem introduzido neste filme é o jovem e corajoso policial John Blake, interpretado por Joseph Gordon-Levitt (ator que apareceu em A Origem e 500 Dias Com Ela) de maneira madura e segura. Blake desempenha importante papel dentro da história, protagonizando alguns momentos-chave. Talvez o único ponto fraco dos novos personagens seja Miranda Tate (Marrion Cottilard), pois além de ser um pouco prejudicada por uma indefinição de roteiro quanto ao seu papel dentro da trama (algo essencial que só é revelado próximo do fim e que constitui o chamado plot-twist do filme – ou ponto de virada), Cottilard nunca entrega uma performance do mesmo nível da vista em seus filmes anteriores.

Christian Bale interpreta Bruce Wayne/Batman mais uma vez de maneira impecável, em uma atuação que transmite ao espectador todo peso que o herói tem de carregar para proteger Gotham City e as pessoas que ama. É tocante todo sacrifício que o personagem tem que ter (não apenas neste filme, mas em toda a trilogia) para transformar o Batman não em um simples combatente do crime, mas em um símbolo maior para os cidadãos se inspirarem. Nota-se ainda todo o esforço físico que Bale teve para fazer este filme, surgindo fragilizado, magro, barbudo e encurvado no começo da película e à medida que esta avança ele ganha força física e postura para vestir novamente o uniforme do Batman. Gary Oldman surge novamente muito bem como o incansável Comissário Gordon, personagem que sempre se mantem sereno e vigilante, mesmo quando Gotham, no início do filme, vive dias de paz. Já Michael Caine interpreta Alfred de maneira comovente, sendo responsável por duas das cenas mais dramáticas e emocionantes do longa (e perceba que em um importante diálogo de Alfred com Bruce Wayne, Nolan opta por cortar a trilha sonora e deixa toda a dramaticidade do momento entregue apenas às magníficas interpretações de Bale e Caine).

O filme conta com cenas de ação sensacionais e em grande escala (as explosões em várias partes de Gotham City e a briga generalizada perto do final são os melhores exemplos), muitas delas filmadas sem computação gráfica, o que reforça o tom realista perseguido por Nolan e sua equipe. E mesmo quando é necessário o uso de efeitos digitais, a sua utilização é tão orgânica e bem empregada que vários espectadores não se incomodarão com este fato. Reforça ainda o aspecto realista do filme a ótima fotografia de Wally Pfister (um dos melhores diretores de fotografia da atualidade), que emprega cores frias na maior parte da projeção. Há que se destacar as duas grandes cenas de luta entre Batman e Bane, com socos e chutes distribuídos de modo seco e brutal, sendo que na primeira dessas cenas Nolan escolhe novamente por cortar a trilha sonora para enfatizar o som de toda a pancadaria, o que dá uma intensidade maior à cena. Falando em trilha sonora, Hans Zimmer entrega outro trabalho magistral e com pequenas diferenças ao do já apresentado anteriormente em O Cavaleiro das Trevas , aumentando ainda mais a tensão em cenas que por si só já seriam tensas .

Contando com uma longa e extremamente bem executada cena de ação perto de seu final ( poucas vezes me senti tão tenso e atordoado assistindo a um filme; é como se Nolan tivesse comprimido uma temporada do seriado 24 horas nos últimos 20 – 30 minutos de filme, tamanho é o envolvimento emocional exigido nesses minutos), Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge entrega ainda aos fãs do homem-morcego diversas referências ao universo dos quadrinhos e possui um desfecho satisfatório que, ao mesmo tempo que acarreta uma certa discussão sobre o que terá realmente acontecido, deixa em aberto a possibilidade de possíveis continuações no bat-universo criado por Nolan. Resta a mim desejar boa sorte a Warner e ao diretor que ela escolher para um futuro filme de Batman (seja um reboot ou uma sequência dentro do universo já apresentado), pois, depois dessa espetacular trilogia dirigida por Christopher Nolan, certamente eles vão precisar se quiserem ao menos igualar o mesmo nível de excelência alcançado pelo diretor britânico.

Nota – 9,0